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SANTOS E BEATOS LASSALISTAS

Apresentação

É impossível amar e tomar como modelo quem não conhecemos. Por isso, aqui apresentamos alguns heróis da Igreja. São eles, santos, mártires e beatos Irmãos Lassalistas. Seja a vida destes Irmãos estímulo para também nós seguirmos e criarmos caminhos de santidade. Seguir as estrelas ao lado leva você a uma rápida síntese da vida de cada um. Ou para saber mais a respeito de alguns destes modelos de santidade clique aqui e verá uma biografia detalhada.

Os que ensinam os outros um dia como estrelas no céu brilharão
Dn 12,3

SANTO IRMÃO BENILDO

    Patrono dos Promotores Vocacionais e dos Acordeonistas
    Foi o Irmão Benildo (Pierre Romançon) o primeiro Lassalista canonizado pela Igreja. Ele viveu a santidade no cotidiano.
    Nasceu no povoado de Thuret, perto de Clermont, na França, a 14 de junho de 1805. Entrou na Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs a 22 de junho de 1821, para preparação religiosa e pedagógica. De origem campesina, o nome recebido, um tanto estranho (Benildo) e sua compleição bastante franzina, não chamaram muito a atenção sobre o novo Irmão, assim que entrou no Noviciado. Passava até meio despercebido no meio dos colegas. Mas, tirando forças de sua própria fraqueza, chegou a se tornar um gigante de santidade, dia após dia, nos curtos 57 anos de sua existência, passada em meio a problemas de saúde.
     Teve uma vida muito ativa, típica de um verdadeiro Irmão das Escolas Cristãs, toda dirigida para Deus e para o próximo. Fazia as coisas "comuns de uma maneira não comum", no dizer do Papa Pio XII, por ocasião de sua exaltação pela Igreja. Modelo em tudo e para todos, desempenhou as mais diversas funções, como cozinheiro, jardineiro, professor e catequista. Inclusive foi Diretor durante seus últimos vinte anos de vida, em Saugues, numa escola recém-criada, em região bastante pobre.
     O equilíbrio tão difícil e invejável da oração com a ação foi alcançado perfeitamente pelo Irmão Benildo e, em conseqüência, sua vida resultou numa fecundidade apostólica digna de registro. Sua influência sobre os alunos do Colégio foi tal, que nos vinte anos de apostolado de Diretor, centenas de rapazes abraçaram a vida sacerdotal ou a vida religiosa de Irmão Lassalista.
     O Papa Pio XII, ao perguntar-se pelo segredo de santidade de São Benildo, descobriu-o na realização, dia após dia, do programa traçado pelas Regras da Congregação dos Irmãos. Aliás, o próprio Irmão Benildo já havia insistido com os Irmãos de sua Comunidade: "Para ser santo, pouco temos de fazer em nossa comunidade, é suficiente observar bem as Regras." Por este seu amor à Regra, colocaram-lhe nas mãos um exemplar, momentos antes de entrar em agonia; beijou reverente o livro.
     O Irmão Benildo foi excelente professor e zeloso catequista, destacando-se como apóstolo da primeira Eucaristia, função que desempenhou durante os vinte anos de diretor da escola.
     Apesar da saúde deficiente, nunca se permitiu uma dispensa nas obrigações diárias. Ao contrário, foi um lutador incansável durante toda a vida, um homem de oração e de ação, ao mesmo tempo, numa perfeita regularidade, sem trégua, nem mitigação.
     Em face dos trabalhos intensos e de sua dedicação, as forças se esgotaram rapidamente em prol da juventude que ele realmente amava e à qual consagrara sua vida, especialmente dos jovens pobres e desamparados. Faleceu a 13 de agosto de 1862.
     O Papa Paulo VI o canonizou a 29 de outubro de 1967. A festa de São Benildo é celebrada na Igreja no dia 13 de agosto.

Fulgura, São Benildo,
Tua fé e teu amor,
Teu zelo tão humilde:
Por nós roga ao Senhor.


SANTO IRMÃO MIGUEL

    O Irmão Miguel nasceu em Cuenca, Equador, em 1854, filho de rica família, foi, em seu país, um dos primeiros Irmãos das Escolas Cristãs, os quais chegaram ao Equador em 1863. No batismo recebeu o nome de Francisco Febres Cordero. Aluno dos Irmãos, encantou-se com o trabalho e a dedicação desses abnegados educadores e resolveu imitá-los.
     Iniciou lecionando nas escolas de Quito. Desde cedo se distinguira pelos profundos conhecimentos da Língua e da Literatura espanholas. Face à carência de livros didáticos, resolveu compor diversos compêndios, os quais, inclusive, foram adotados oficialmente pelo Governo Equatoriano, para todas as escolas públicas.
     Foi chamado para integrar a Real Academia Equatoriana e nomeado Acadêmico Correspondente da Real Academia Espanhola.
     As Leis de Combes haviam infligido duras perdas para as escolas lassalistas da França, desde 1904. Os Irmãos não poderiam mais exercer o apostolado específico, nas suas escolas, e isso justamente no país que dera origem à Congregação. Como solução, a expatriação dos Irmãos era o único meio viável. Deveriam atuar em países de língua espanhola, foram necessários os conhecimentos desta língua, falada em toda a América do Sul (exceto o Brasil) e em parte da América do Norte. O Irmão Miguel em 1907 foi enviado para a Europa e encarregado de ministrar-lhes os conhecimentos necessários. Várias obras didáticas existentes em francês, o Irmão as adaptou à língua castelhana.
     Iniciou os trabalhos em Paris, passou para a Bélgica e, finalmente foi enviado para Premiá de Mar, em Barcelona.
     Teve por trabalho o preparo dos jovens religiosos que optassem pela América como campo de ação. Continuou sua vocação de escritor, e os mais de 10 mil fólios testemunham a incansável dedicação como professor e como literato.
     Em Premiá de Mar viveu momentos trágicos, em 1909 e por isso foi transferido, juntamente com os 125 jovens, seus alunos, para Barcelona, pois o Colégio de Premiá fora ameaçado de destruição e de incêndio pelos revolucionários anticlericais.
     Faleceu em Premiá de Mar, a 9 de fevereiro de 1910.
     Entre os documentos deixados, foram encontrados seus títulos de Acadêmico da Real Academia do Equador e da Espanha. Todos ignoravam a existência dessas condecorações, nunca falara a este respeito. Sabia-se, contudo, que ele era um exímio gramático, respeitado e profundo conhecedor e que tinha diversas obras de gabarito publicadas. Tal atitude é estranha numa época em que todos publicam aos quatro ventos todos os títulos que possuem... "Acontece que o verdadeiro sábio é humilde."
     Alguém deveria fundar a ACADEMIA DO CORAÇÃO. Como regra fundamental ficaria estabelecido que todos os que quisessem pertencer à mesma, deveriam fazê-lo secretamente... Não existe já, por acaso, a ACADEMIA DOS HUMILDES, de coração enorme e cuja lista enriquece a VIDA DOS SANTOS?
     Irmão Miguel foi canonizado pelo Papa João Paulo II a 21 de outubro de 1984. A festa do Santo Irmão Miguel está fixada para o dia 9 de fevereiro.
     O Irmão Miguel, com justiça, deve ser considerado o Apóstolo da Primeira Eucaristia, para a qual, pessoalmente, preparou milhares de crianças, durante longos anos.


SANTO IRMÃO MUCIANO MARIA

    Nasceu em Mellet, Bélgica, a 20 de março de 1841. Em casa recebeu uma educação cristã exemplar, e desde menino já era um modelo para seus colegas, especialmente por sua devoção a Nossa Senhora, herdada de seus pais.
     Terminados os estudos primários, iniciou o trabalho, auxiliando o pai, que era ferreiro. Trabalho duro, mas ao qual se entregava com muita dedicação e responsabilidade. Entretanto, pouco tempo mais tarde, Deus o chamou para uma vida dedicada totalmente ao serviço dos meninos, especialmente dos pobres, para os quais sacrificou mais de cinqüenta anos de sua existência.
     Aos quinze anos entrou no Noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs, recebendo o nome de Irmão Muciano Maria, no dia da Apresentação de Nosso Senhor ou Purificação de Maria Santíssima.
     Após os estudos, iniciou seus trabalhos apostólicos e de catequese em Chimay, para logo ser transferido a Bruxelas. Pouco tempo durou sua permanência nesta cidade; foi indicado para o grande Colégio de Malonne, no qual trabalhou até a morte, ocorrida em 1917.
     O Irmão Muciano muito sofreu durante sua vida. Nunca conseguiu um domínio perfeito sobre seus alunos e, em certa época, por muito pouco não foi despedido da Congregação, como não servindo para o Magistério. Mas, analisando melhor a situação, os superiores lhe destinaram ocupações secundárias, como vigilância nos pátios, lições elementares de desenho e de música; assim mesmo, nunca revelou grandes aptidões para estas ocupações e nem para as artes.
     Sempre serviçal e muito obediente esforçou-se para aprender a tocar piano, harmônio e outros instrumentos. No amor a Deus encontrou forças suficientes para continuar nestas ocupações, sem desanimar, pois não eram nada fáceis para ele. E isso por mais de cinqüenta anos!
     Como a Congregação fora fundada por São João Batista de La Salle, em 1680, para os alunos pobres, o Irmão Muciano solicitou permissão para dar catequese aos alunos do Colégio anexo, gratuito, encargo que desempenhou com dedicação extraordinária, fazendo descobrir a estes jovens as riquezas da fé. O bem que realizou com estas pobres crianças foi incalculável: estes jovens nunca esqueceram o belo testemunho dado pelo Irmão Muciano.
     "A grande característica do Irmão Muciano era a obediência, que chegava às raias do heroísmo, em praticar exatamente todos os pontos da Regra. Tomou a Regra e a partir do primeiro Capítulo o Irmão Muciano observou todos fielmente. Este é o melhor resumo de sua biografia". Assim escreveu um Irmão, colega dele por muitos anos, no mesmo Colégio.
     Os alunos, mesmo com os quais ele não tinha contato maior, o admiravam e só o conheciam como o "Irmão que reza sempre". Alguns o apelidavam "o Irmão do Santo Rosário" (terço).
     No final da vida, o Irmão Muciano declarou: "Que felicidade a gente sente quando, perto de deixar este mundo, se teve uma grande devoção à Virgem Maria". Foi essa sua última mensagem, antes de falecer. Na manhã de 30 de janeiro de 1917, ele entregava sua alma a Deus. Imediatamente a população o invocou como um santo, pedindo proteção e ajuda. O Papa João Paulo II o declarou Santo em 10 de dezembro de 1989. Sua festa está fixada para o dia 30 de janeiro.

SANTO IRMÃO JAIME HILÁRIO

    Mártir condenado só por ser religioso!
Manuel Barbal Cosan nasceu a 2 de janeiro de 1898 na localidade de Enviny, perto de Urgel, Espanha. Sua infância se passou em ambiente cristão, no difícil trabalho da lavoura, nas montanhas.
     Antes dos treze anos ingressou no Seminário Menor de Urgel. Mas, em virtude de uma dor de ouvido, doença que afetou a audição, teve de abandonar a carreira eclesiástica. Este problema de saúde seria uma das cruzes pelo resto da vida.
     Em inícios de 1917 ingressou no Noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs e dois meses depois iniciou os estudos religiosos e pedagógicos, sob o nome de Irmão Jaime Hilário. Terminada a preparação, dedicou-se à vida de educador e de catequista, em diversas cidades da Espanha. Mesmo com a doença que se acentuava sempre mais, desenvolveu suas aptidões de maneira particular.
     Em meados de julho de 1936, aproveitando um curto período de férias, foi visitar os seus familiares. Entretanto, a 18 de julho estourou a Guerra Civil Espanhola. O Irmão Jaime, nesta oportunidade, se encontrava em Mollerussa; procurou refúgio numa família conhecida. Mas foi preso e removido para o cárcere público de Lerida e, em dezembro, foi enviado para Tarragona. Ficou preso num "barco-prisão", com muitos outros religiosos, entre os quais se encontravam seus antigos Coirmãos de Mollerussa.
     A 15 de janeiro de 1937 foi citado perante o tribunal. Este lhe falou que constituísse um advogado, a que o Irmão Jaime respondeu: "Não cometi nenhum delito; não tenho necessidade de defesa". Os colegas de prisão insistiam com ele para afirmar que era simplesmente jardineiro do Colégio. Mas ele respondeu: "prefiro dizer toda a verdade; eu sou religioso lassalista". O mesmo ele fez dizer ao advogado que, aliás, foi indicado pelo júri. Apesar de o mesmo requerer o indulto, este lhe foi negado ; 24 outras pessoas conseguiram a liberdade. Somente ele foi condenado, pelo único fato de ser religioso.
     A 18 de janeiro de 1937, às 15h30, o Irmão Hilário foi fuzilado no Cemitério chamado "La Oliva", em Tarragona. O esquadrão de execução tomou posição e o mártir rezava, com as mãos cruzadas sobre o peito. À ordem de "Fogo!" os milicianos dispararam seus fuzis. Mas a vítima ficou intata. Nova ordem e nova fuzilaria: mas o condenado ficou de pé. Os soldados do esquadrão, estupefatos e temerosos, largaram as armas e fugiram. O chefe, furioso, aproxima-se da vítima, profere palavras injuriosas, e, à queima-roupa, fez diversos disparos na cabeça do Irmão Jaime. Este ainda teve forças para gritar: "Morrer por Cristo é viver, meu rapazes!"
     O Irmão Jaime Hilário, como religioso, era exemplar: piedoso e fiel. Esta fidelidade, sua principal característica, lhe inculcava uma grande estima pela Congregação. Fidelidade à lealdade, à constância e ao apego à vocação. Suas cartas aos familiares estão repletas destas idéias e procurava comunicar esta fidelidade aos seus. Os escritos transpiram uma vivência de profundo amor a Deus.

Foi beatificado por João Paulo II a 29 de abril 1990.
Foi canonizado pelo mesmo papa João Paulo II em 1999.
Sua festa é comemorada a 18 de janeiro.

SANTOS IRMÃOS MÁRTIRES DE TURÓN

    Desde 1919, os Irmãos Lassalistas mantêm "juntos e por associação", a Escola Nossa Senhora de Cavadonga, na cidade de Turón, Espanha. Em 1934, oito Irmãos relativamente jovens ali trabalhavam em situação bastante difícil; a escola era gratuita e atendia os filhos dos operários das fábricas. No ano anterior, as leis republicanas proibiram o ensino católico e a catequese em todas as escolas. Com astúcia, os Irmãos continuavam a obra, trabalhando como civis, burlando a lei injusta. Mas foi por pouco tempo.
     No início da vitória da revolução comunista estava com a Comunidade o Padre Inocêncio da Imaculada, passionista, que viera atender as confissões dos alunos, em preparação à primeira sexta-feira do mês, o que aconteceria no dia seguinte.
     De manhã, às 5h, os Irmãos se dirigiram para a capela conforme costume de todos os dias e iniciou a Santa Missa. Pouco depois, muita gritaria e golpes no portão e nas janelas deram a impressão de que algo de sério estava acontecendo. O Padre interrompeu a Missa e solicitou que os Irmãos consumissem todas as hóstias.
     O Irmão Marciano desceu e se enfrentou com uma turba de umas trinta pessoas, fortemente armadas. Sem nenhuma autorização e com a maior sem-cerimônia, invadiram o Colégio, entraram em todas as salas e quartos; reviraram tudo e arrebentaram os móveis. Levaram as listas dos alunos. Mas não encontraram armas e dinheiro, razão da invasão do Colégio. O Padre Inocêncio e os oito Irmãos da Comunidade receberam voz de prisão e foram levados, com brutalidade, para a prisão, para a "Casa do Povo", transformada provisoriamente em cadeia pública.
     A Comunidade era formada por oito Irmãos: Cirilo Bertrán, 46 anos, Diretor; Marciano José, 33 anos; Vitoriano Pio, 29 anos; Benjamin Julián, 26 anos; Julián Alfredo, 31 anos; Augusto Andrés, 24 anos, Benito de Jesus, 24 anos e Aniceto Adolfo, com apenas 22 anos. O Padre Inocêncio, que estava de passagem, contava com 47 anos de idade.
     Ficaram quatro dias no cárcere e muitos outros religiosos e católicos se juntaram a eles, especialmente jovens pertencentes à Ação Católica. O chefe da revolução resolveu dar uma lição ao povo e condenou os oito Irmãos e o Padre Inocêncio à morte. Ele rejeitou o proceder de seus colegas revolucionários de outras cidades que não admitiram tal atitude extrema e injusta. Ele mandou abrir, no cemitério local, uma vala de nove metros de comprimento.
     No dia 9 de outubro de 1934, o próprio chefe, auxiliado por alguns companheiros, foram à prisão, retiraram dela, ainda de madrugada, os oito Irmãos e o Padre Inocêncio e os levaram, em fila indiana, para a execução, na encosta da colina, em frente à cidade. Todos foram enfileirados em frente à vala, com rosto voltado para a cidade; a última visão dos condenados recaiu sobre o Colégio, todo iluminado, pois os fascínoras o haviam transformado em quartel da Revolução. O pelotão atirou. Todos caíram. O chefe deu um tiro de pistola em cada um dos caídos. Mandou que fossem sepultados.
     Os Irmãos e o Padre se prepararam muito bem para este momento, na prisão, pois a morte era uma certeza. Um Padre libertado contou o que se passara na prisão! Morreram por serem religiosos e professores cristãos. João Paulo II os beatificou em 29 de abril de 1990. A festa é celebrada a 9 de outubro. Foram canonizados em 1999 pelo mesmo papa João Paulo II.

BEATOS, IRMÃOS E MÁRTIRES DE ALMERIA
    Apóstolos da Escola Almeria, Espanha, contava em 1936 com dezenove Irmãos das Escolas Cristãs: quinze atendiam ao Colégio São José e quatro, à Escola de Las Chocillas. Sete deles seriam escolhidos por Deus para receber a palma do martírio. Entretanto, eles não sofreram o martírio na mesma data. Vejamos:
     Na noite de 30 para 31 de agosto, os Irmãos Edmígio, Amalio e Valério Bernardo foram trucidados.
     A 8 de setembro, na parte da tarde, foi a vez dos Irmãos Teodomiro Joaquim e Evencio Ricardo sacrificarem suas vidas.
     E na noite de 12 para 13 de setembro foram imolados os Irmãos Aurélio Maria, Diretor do Colégio, e José Cecílio.
     Na mesma oportunidade, fazendo parte do grupo de Almeria, foram martirizados, na noite de 29 para 30 de agosto, D. Diego Ventaja Milán, Bispo de Almeria, e D. Manuel Medina Olmos, de Guadix.
     Todos formaram um único processo e a documentação, com os testemunhos e o relato do martírio, estiveram unificados desde o princípio. Os nove partilharam dos mesmos sofrimentos na cadeia.
     Outros Irmãos do Colégio também estiveram presos, mas conseguiram se livrar da morte e, em geral, nunca se soube bem o porquê. As principais características dos Irmãos martirizados são:
     IRMÃO AURÉLIO MARIA: era de bom caráter e alma simples. Era bom professor e ótimo educador. O zelo pela salvação eterna dos alunos animava seus catecismos e suas exortações, especialmente a reflexão feita regularmente cada manhã. Era ótimo religioso, prudente e estimava muitíssimo sua vocação. Bastava vê-lo rezar para sentir-se inclinado a fazer o mesmo.
    IRMÃO JOSÉ CECÍLIO: era muito serviçal e extremamente hábil nos trabalhos manuais. Tinha um prazer todo especial em servir aos outros. Religioso obediente, piedoso, exato cumpridor de seus deveres. O maior prazer que ele sentia era lecionar aos jovens alunos, seja a religião ou as disciplinas profanas.
     IRMÃO EDMÍGIO: já como aluno era modelar. Como religioso podemos assinalá-lo como uma pessoa realmente piedosa, prudente, trabalhadora e abnegada. Sua piedade era manifesta e sincera. Tinha uma devoção especialíssima ao Santíssimo Sacramento e à Via-Sacra, assim como à Santíssima Virgem Maria. Ajudar aos jovens Irmãos constituía para ele uma verdadeira caridade.
     IRMÃO AMÁLIO: era simples e de caráter serviçal. Procurava sempre alegrar aos tristes. Como religioso era muito piedoso, humilde e fervoroso. Interessado nas vocações sacerdotais e religiosas, aproveitava todos os momentos propícios para despertá-las. Excelente professor de alunos menores, os quais o tinham em grande estima.
     IRMÃO VALÉRIO BERNARDO: Exato cumpridor dos deveres religiosos e de professor. Caráter alegre e simples. Admirável exemplo de obediência religiosa. Muito interessado pelo progresso de seus alunos, especialmente no campo intelectual e religioso, sem descuidar-se da pessoa humana.
     IRMÃO TEODORO JOAQUIM: Um jovem religioso afeiçoado à sua vocação, bom professor, zeloso, prudente. Ótimo caráter. Sobressaía na piedade. Era poeta. Combatia todos os tipos de relaxamento.
     IRMÃO EVÊNCIO RICARDO: Religioso e educador modelar. Fazia propaganda pela reza do terço diário. Alegre, otimista e com vontade firme de estudar o máximo. Zelava pela formação dos alunos nos deveres cristãos e sociais.

O Papa João Paulo II beatificou o grupo a 10 de outubro de 1993 e fixou a festa destes Mártires Lassalistas para 16 de novembro.


BEATOS E MÁRTIRES DOS PONTÕES DE ROCHEFORT

    Fim do século XVIII, o Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs começa a dar passos ousados, criativos, em meio a uma situação política difícil: a Revolução Francesa.
     O Superior Geral, à imitação do Santo Fundador incitava os Irmãos a permanecerem firmes na fé, e fiéis à Igreja e ao Papa: "O Instituto não busca o número, mas a qualidade de seus membros. Os que permaneceram fiéis a seus deveres de estado, estejam seguros de perseverar". Apesar da difícil situação, eram estranhas e edificadoras para os Irmãos as solicitações de abertura de comunidade e de escolas. Isto tudo lhes alimentava a esperança!
     A comunidade de Moulins, unânime, permaneceu fiel à Igreja. Na pessoa do Irmão Rogério, diretor da comunidade, os Irmãos assim respondem às ameaças de fechamento da escola e deportação: "Vocês são livres para fazê-lo. Eu não renego a minha fé, meu batismo, nem meus votos religiosos, que agora me unem mais fortemente a Nosso Senhor..." Em abril de 1793 a situação se agrava, os Irmãos são aprisionados em distintos locais.
     A matança começou! O povo é incitado a matar os Religiosos, agora considerados inimigos.
     No dia 21 de outubro, todos os encarcerados que ainda se negam a prestar o juramento ao governo, contra a Igreja, são condenados à deportação para a Costa da África.
     Os condenados seguem uma verdadeira Via-Crúcis até Rochefort, litoral oeste da França, donde partiriam à deportação. Seguem em dois grupos. O primeiro parte dia 25 de novembro, neste se encontra o Irmão Rogério. Já o segundo grupo parte dia 28, ali se encontram os Irmãos Uldarico e Leão.
     A longa viagem até Rochefort é transformada num humilhante espetáculo, do qual os prisioneiros são expectadores e partícipes.
     Ao chegar em Rochefort percebe-se que os barcos que os transportariam até a África não estão em condições para realizar tal viagem. Assim, aqueles barcos negreiros, chamados de pontões, são transformados em prisões flutuantes sobre o mar.
     Antes da subida dos prisioneiros aos barcos uma última inspeção. Devem ser recolhidos todos os objetos religiosos. Por fim, muitas Bíblias, crucifixos, livros de orações foram jogados ao mar... Rezar, somente às escondidas!
     Quatrocentas pessoas são amontoadas no barco "Os Dois Sócios", entre estes estão nossos Irmãos... Sem ventilação, sem luz, sem espaço suficiente, sem alimentação, sem banheiros, são tratados sem compaixão. O tempo passa, a situação se torna insuportável, e surge uma devastadora epidemia de tifo. Aos poucos a pequena Ilha Madame foi tornando-se cemitério de uma grande quantidade de mártires.
     No dia 12 de abril de 1795 foi decretada a liberdade para aqueles que conseguiram sobreviver. Na lista, ironicamente, figurava o nome do Irmão Rogério. Tarde demais! Dentre os sobreviventes ainda foi possível encontrar três Irmãos Lassalistas.

A seguir apresentamos alguns dados biográficos dos três Irmãos que sofreram o martírio nestes navios-prisão. Aludimos à solicitude dos mesmos em servir aos demais prisioneiros e ao silencioso padecimento, à imitação de Cristo, pelo qual sacrificaram suas vidas, a serviço da juventude pobre e abandonada.

IRMÃO LEÃO

    Filho de Marie e Jean-Baptiste Claude Mopinot, Jean nasceu em Reims, no dia 12 de dezembro de 1724. Foi batizado no mesmo dia, na Paróquia de São Tiago, pelo Padre Huberto Vuyart. Foi aluno dos Irmãos em Thillois. Aos 19 anos ingressou no Noviciado de Santo Yon, em 14 de janeiro de 1744, recebendo o nome de Irmão Leão. Seus Votos Perpétuos aconteceram no dia 1º de novembro de 1749.
     As leis persecutórias surpreenderam-no septuagenário, mas cheio de vigor e entusiasmo, conforme atestam contemporâneos, tanto assim que os revolucionários não lhe concederam as mitigações previstas para idosos.
     Deportado, expirou a 21 de maio de 1794. Colegas de infortúnio o sepultaram na ilha de Aix, situada no estuário do rio Charente.


IRMÃO ROGÉRIO

    Orleans, 25 de julho de 1745: o parto de Cathérine Legout, esposa de Pièrre Faverge, é complicado e o recém-nascido corre perigo. O médico recomenda, às pressas, o batismo, pois o pior pode acontecer. O menino é batizado, recebe o nome de Pièrre-Sulpice-Christophe Faverge. Gradativamente vai superando o perigo, quer viver! Após estudar numa escola lassalista, Pièrre Faverge ingressa no Noviciado de Maréville, em 1767, quando recebe o nome de Irmão Rogério. Após seu Noviciado, continua ali mesmo sua formação pedagógica.
     Na Revolução Francesa, encontramo-lo como Diretor da Escola mantida pela Congregação na cidade de Moulins, centro-sul do país. Que dizem dele as testemunhas?
     Testemunhas dizem dele: "Pessoa excelente, cheia de virtudes. Piedoso, zeloso da instrução da juventude, possuía, em grau icomum o dom do governo, gozando de elevada consideração na cidade".
     Fez-se servo de todos: cuidando doentes, animando com palavras de esperança a fé dos que sofriam pela fé; com sua alegria franca e os bons ofícios doi admirado pelos companheiros seus de infortúnio e amigos. Suas mãos, tão hábeis no ensino da caligrafia, remendavam sapatos dos colegas.
     Tanto a dedicação aos doentes, como a insuficiência alimentar, prostraram-no, apenas chegado ao hospital da Ilha Madame. Faleceu a 12 de setembro de 1794, sendo ali sepultado.


IRMÃO ULDARICO

    Nasceu e foi batizado em Fraisans, no dia 1º de fevereiro de 1755. No Livro de Batismo da paróquia de Dampierre, diocese de Besançon, encontramos: "Jean-Baptiste Guillaume, filho do matrimônio de Nicolas Guillaume e Antonie Mignot, foi batizado no dia 1º de fevereiro de 1755." Segundo ele mesmo, ingressou no "Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs no dia 16 de outubro de 1785, com o nome de Irmão Uldarico". Seu Noviciado aconteceu em Maréville. Portanto, pouco tempo tinha de vida religiosa e apostólica ao ser colhido na rede da malvadeza revolucionária em Nancy.
     Muito apegado às crianças pobres de Nancy, permaneceu na cidade, continuando, clandestinamente, a instruí-las na piedade, assim como na arte da leitura e escrita, até ser preso.
     No navio-prisão, ele edificou, com a calma e a caridade, os companheiros de detenção. Os sacerdotes enfermos e idosos tornaram-se alvo de seus cuidados atentos e respeitosos. A vista dos sofrimentos inenarráveis deles veio a ser um martírio para o caridoso Irmão, consumindo-o em pouco tempo. Caiu doente. O calor canicular, fatal a elevado número de seus companheiros, apressou-lhe a hora da libertação.


     Ao longo do tempo a Igreja foi reconhecendo a heroicidade de tantos mártires da Revolução Francesa. Há outros sobre os quais, infelizmente, não há documentos que possam comprovar o martírio pela fé, para se encaminhar processo canônico.
     Duzentos anos depois, chega o reconhecimento para mais 64 mártires. Neste grupo estão incluídos os Irmãos Rogério, Uldarico e Leão. Domingo, dia do Senhor, 1º de outubro de 1995 a Igreja inteira canta, toda cheia de alegria, pois acontece, presidida pelo Papa João Paulo II, a solene beatificação de mais um grupo de mártires, os quais são chamados "Beatos Mártires dos Pontões de Rochefort".
     Sua memória é celebrada dia 2 de setembro.



BEATO IRMÃO ESCUBILIÃO

     Bernardo Roussseau, pessoa honrada e cristão exemplar, exercia uma profissão extremamente cansativa: era talhador de pedra. Bernardo e Reina são os pais de João Bernardo, o primogênito da família, mais tarde conhecido sob o nome de IRMÃO ESCUBILIÃO. Além de João Bernardo, o casal teve mais três filhos: um menino e duas meninas. Apesar da luta pelo sustento da família e de uma acentuada pobreza, era uma família exemplar.
     João Bernardo nasceu a 22 de março de 1797, em plena tormenta revolucionária e uma violenta perseguição religiosa. Por este motivo, o batismo do pequeno foi efetuado às ocultas, como nos tempos das catacumbas, pois a Igreja da França vivia uma fase que se assemelhava àquela dos primeiros cristãos. O batizado foi feito às pressas, porque todos os sacerdotes viviam sob estrita vigilância, especialmente o Pe. Estêvão, por sinal muito zeloso pela salvação das almas dispersas.
     Desde cedo, o jovem Bernardo compreendeu as responsabilidades de primogênito; iniciou por encarregar-se de cuidar carinhosamente dos irmãozinhos e auxiliar nos trabalhos, na medida do alcance de suas forças. Com um pouco mais de idade declarava-se inclinado para a vida religiosa. Estudou na escola pública e, em virtude de sua aplicação, não demorou a se tornar um valioso auxiliar do professor, sobretudo para os alunos com aprendizagem mais difícil.
     Aos 25 anos de idade deixou a casa paterna para ingressar na Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs, no Noviciado de Paris. Durante dez anos desempenhou as mais diversas funções, sempre disponível nos vários colégios que percorreu: professor, cozinheiro, jardineiro, horticultor. Fez um apostolado maravilhoso nestes colégios e seu apostolado não conhecia canseiras.
     Alguns anos após sua profissão perpétua, o Irmão Escubilião ofereceu-se para trabalhar, como missionário, na Ilha Burbon, atualmente chamada Reunião, África. Embarcou a 20 de abril de 1833, em companhia de dois colegas. Foram 85 dias de viagem para chegar a São Dionísio, centro administrativo da colônia francesa. Ao desembarcar declarou: "Nada me amarra a este mundo; farei todos os sacrifícios para a salvação das almas e a glória de Deus."
     Nesta terra montanhosa passou 34 anos em apostolado, primeiro com os brancos, pois era proibido instruir e catequizar os negros, que formavam a maioria da ilha. O Irmão Escubilião encontrou formas para abolir a distância entre ele e os oprimidos: unindo-se a eles para dizer que eram filhos de Deus... Todos os momentos estavam ocupados. Nunca pensou em voltar à pátria: esquecera sua terra natal por causa de uma doação total à terra de missão... Quando finalmente foi permitida a instrução religiosa aos escravos, seu zelo não conheceu mais limites.
     Todas as tardes, de 19h às 21h mais de trezentos escravos se reuniam para ouvi-lo, divididos em grupos, cada um sob a orientação de um monitor, devidamente preparado. Como os escravos esqueciam as verdades ensinadas, o Irmão inventava canções, frases, poemas e poesias, que repetiam freqüentemente essas verdades, assim decoradas aos poucos.
     Quando foi decretada a libertação dos escravos a 20 de dezembro de 1848, estes estavam preparados para assumir com responsabilidade sua emancipação. O santo missionário estava feliz. Mas o trabalho contínuo, sem descanso, as longas viagens e as numerosas aulas delapidaram as forças do herói dos escravos. Faleceu a 13 de abril de 1867.
     Mais de século já se passou, mas o povo não esquece o santo protetor. Os peregrinos acorrem aos milhares e seu túmulo mais se parece a um jardim florido.

O Papa João Paulo II o beatificou a 2 de maio de 1989.
A festa é celebrada a 13 de abril.


BEATO IRMÃO ARNOLDO

    Irmão Arnoldo nasceu a 2 de setembro de 1838, perto de Metz, França. No batismo recebeu o nome de Júlio. Viveu 52 anos. Faleceu em Reims.
    Filho de humilde sapateiro, era o mais velho de nove filhos do casal Cláudio e Ana Rèche: seis rapazes e três meninas. Em casa, sob a orientação do pai (a mãe vivia doente), nunca era descuidada a oração da manhã, a missa aos domingos e dias de festa e a reza do terço em família, todas as noites. Júlio estudava na escola pública e tinha, como aspiração freqüentar o magistério. Mas o minguado salário do pai não atendia as necessidades da casa e Júlio teve de abandonar os estudos e empregar-se numa fazenda a fim de ajudar nas despesas da casa. O dono das terras estava feliz com ele: "Nunca mais terei um empregado como o Júlio, disso tenho certeza".
    Com esse trabalho o jovem ficava em contato com a natureza, e este fato marcou-o pelo resto da vida. Mas, procurando ganhar um pouco mais, conseguiu emprego em Charleville. Ajudou a construir a belíssima igreja. O tempo livre ele o passava em oração pessoal e na preparação de alguns jovens para a Primeira Eucaristia. Um socialista que o conhecia bem disse dele: "excelente rapaz, trabalhador, responsável e amigo. Mas é santo demais!"
    À noite ele freqüentava as aulas dos Irmãos Lassalistas, onde aprendeu a apreciar seus mestres e a admirar-lhes a vida. Acabou pedindo admissão na Congregação. Fez o Noviciado em 1862 e após a conclusão dos estudos iniciou o segundo período de sua vida: o de religioso-educador. Ficou quatorze anos lecionando, como excelente professor de pensionistas, e dedicou doze anos aos jovens que se preparavam para ingressar na Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs, como Mestre de Noviços.
    Apesar de seu passado, este bom camponês se converteu num dos melhores professores de uma instituição docente de renome. Sobretudo foi um exímio professor de jardinagem e de agricultura. Todos louvavam seu saber e os conhecimentos gerais. Sua abnegação era algo extraordinário. Entre os Irmãos era humilde, perdido em Deus e caridoso com todos. Sobretudo as aulas de religião revelavam seu zelo apostólico mais ardente e inventivo.
    Na Guerra de 1870 serviu como enfermeiro voluntário no front. Por isso, o Irmão Arnoldo foi condecorado, ressaltados os seus atos de bravura, a sua dedicação e o seu heroísmo.
    Seus doze anos de Mestre de Noviços foram anos de intensa vida espiritual, de oração, de humildade e penitência, dedicação aos formandos. Suas devoções principais foram a Eucaristia e a Santíssima Virgem.
    No mês de novembro de 1888 adoeceu gravemente, em parte por contaminações durante a Guerra de 1870. Mas a sua força de vontade o fez trabalhar por mais um ano em seu ministério. Substituído, ocupou-se com os cuidados do jardim e dedicou-se de maneira especial aos Irmãos mais idosos de Reims. Para ele mesmo, nada foi poupado para que a saúde se restabelecesse. Ficou, inclusive, uma temporada nas águas minerais de Mont Dore. A obediência ao enfermeiro e ao médico indicavam o suficiente a submissão do doente à Vontade de Deus.
    Na volta ao Colégio, ao passar junto a um professor que corrigia os trabalhos dos alunos, lhe segredou: "Ofereça seu trabalho a Deus, por seus alunos."
    A 23 de outubro de 1890, sofreu o Irmão Arnoldo um derrame cerebral. Teve, no entanto, ainda forças suficientes para ir até a capela, a fim de fazer uma visita a Nosso Senhor. Levado ao quarto, recebeu os santos Sacramentos e faleceu placidamente.
    A 1º de novembro de 1987, foi beatificado pelo Papa João Paulo II e sua festa é celebrada em 23 de outubro.

BEATO SALOMÃO LECLERQ

    Nosso glorioso primeiro mártir da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs, Beato Irmão Salomão Leclerq, nasceu a 15 de dezembro de 1745, em Boulogne-sur-Mer (França). No batismo recebeu o nome de Nicolau. Não existe foto dele; mas pelas descrições podemos imaginá-lo de corpo robusto, estatura bastante elevada, enérgico, franco e sereno, como filho de família burguesa, da orla marítima. Ele levou consigo para a vida religiosa a intrepidez, o equilíbrio e a resistência robusta de sua família. Seu aspecto físico é o de um atleta, pronto para os duros problemas que teria de enfrentar.
    A Revolução Francesa o surpreendeu no cargo de Secretário do Superior Geral dos Irmãos das Escolas Cristãs, Irmão Agatão. Durante todo o tempo de perseguição à Igreja da França, ele se distinguiu como ardoroso propagandista das diretrizes do Papa e das publicações contrárias ao juramento revolucionário (desobediência ao Papa). Esta atitude tão valente e cristã, por diversas vezes quase o levou à prisão. Livrou-se... confiando somente na proteção divina.
    Mas a 15 de agosto de 1792, segundo carta à sua irmã, cujo original está guardado no Museu de Cambrils, confessa-se disposto a sofrer por Cristo, apesar de ele mesmo se achar indigno desta honra. Este trecho já é um verdadeiro testamento do Irmão Salomão. Fazia 25 anos que ele se dedicava ao serviço do Senhor, nas obras da Congregação; mas os laços familiares, com todos os membros de sua família, continuavam afetivos e ternos. A vida religiosa, antes, os reforçou e aprofundou.
    Mas a hora de Deus estava se aproximando, como o recorda um Irmão Lassalista, em carta à Família Leclerq, a 22 de agosto de 1792, onde dizia: "No dia 15, cinqüenta homens da guarda nacional invadiram a casa onde residia o Irmão Salomão, revistaram tudo durante quatro horas e, afinal, levaram o Irmão preso e o encarceraram na igreja dos Carmelitas, juntamente com uma centena de outra pessoas. Consegui falar com ele, mas por pouco tempo, pois os guardas nos obrigavam a comunicar-nos em voz forte e por tempo bem limitado. O Irmão Salomão está muito bem disposto e aceita, muito agradecido a Deus, a ocasião de poder sofrer algo por Ele. As prisões continuam se multiplicando; cabeças são cortadas sem parar. Esta é a situação atual."
    Apesar de um quadro tão triste e violento, o bom Irmão continuou visitando o detento e sempre procurou tranqüilizar a família Leclerq: "O Irmão Salomão envia um abraço para todos..."
    Em breve, todas as ilusões se desvaneceram. A 2 de setembro, ante o boato da aproximação das forças armadas, o Irmão Salomão é convocado perante o júri, para um simulacro de julgamento. Todas as pessoas que haviam recusado prestar o Juramento da Constituição Civil do Clero foram barbaramente trucidadas, uns a tiros de escopeta, mas a maioria tivera seus crânios esfacelados com machados, picaretas, barras de ferro e outros utensílios que estes sedentos de sangue traziam nas mãos como armas. No meio dessa hecatombe, tombou o Irmão Salomão Leclerq. O local do massacre foram os jardins e os pátios do Convento dos Carmelitas, na porta dos fundos da igreja.
    Uma simples lápide de mármore recorda o fato, acontecido a 2 de setembro do ano de 1792, com os dizeres em latim: "Aqui foram trucidados".

O Papa Pio XII proclamou Beatos o Irmão Salomão e seus companheiros mártires, a 17 de outubro de 1926.
A festa do Beato Irmão Salomão é celebrada a 2 de setembro.


BEATOS MÁRTIRES DE VALÊNCIA

Homens de fé, caminho do Evangelho
Beatificados pelo Papa João Paulo II, a 11 de março de 2001

     A semente plantada por La Salle germinou
e produziu abundantes frutos.
Os cinco Beatos eram membros do Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs. Sua única preocupação era seguir a Jesus na vocação em que os havia chamado: santificar-se educando os meninos e os jovens, ensinando-lhes a viver cristãmente.
     Quando começou a perseguição religiosa na Espanha, trabalhavam eles tranqüilamente nas instituições educacionais da Província Lassalista de Barcelona. Viajaram para Valência para cumprir uma obrigação própria de seu labor educacional quando o Senhor os chamou para darem seu testemunho extremo. Os verdugos nem os conheciam. Ao saberem que eram religiosos, consideraram isto pretexto suficiente para detê-los e justiciá-los.

     Os mártires são sinal da Igreja, Corpo de Cristo, que continua sendo perseguida e condenada à morte em seus membros. Mas estes olham fixamente para a aurora gloriosa da ressurreição.
     É esta a lição que nos dão os mártires, tanto os de ontem, como os de hoje. Devemos estar dispostos a imitar-lhes a generosidade.
     Os Irmãos Florêncio Martín, Bertrán Francisco, Antônio León, Elías Julián, Donato Andrés e o Pe. Leonardo Buera, capelão do colégio de Bonanova, entregaram suas vias por terem sido fiéis à sua condição de ministros e embaixadores de Jesus Cristo.
Embora sabendo que a afirmação de sua condição de religiosos os levaria à morte, não duvidaram a confessar sua fé em Jesus e sua pertença ao Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs.
     Estes cinco Irmãos - agora novos Mártires - não tinham outra ocupação senão seguir Jesus Cristo na vocação a que ele os havia chamado: procurar a salvação dos meninos e jovens, para sua plena realização, como seres humanos, como cristãos.

     Com esta beatificação, seus nomes passam a aumentar a constelação de santos e beatos do mundo lassalista. Começando por La Salle - nosso Fundador - e, posteriormente, pelo Ir. Salomão Leclerq - primeiro Irmão Mártir, durante a revolução francesa - dão-nos a garantia de que a fidelidade ao Senhor no caminho da educação integral dos meninos, das meninas, dos jovens e moças constitui um caminho de Evangelho.
     Jovem, professor, professora, colaborador lassalista, pai de família: esta mensagem te convida também a ti a entregares tua vida pelo Reino, no estado de vida que escolheste, na profissão que desempenhas. A causa do Reino faz que nossa vida adquira a dimensão religiosa que é fonte de alegria e fortaleza permanente, ainda ante as mais duras provas da vida.
     Junto com os novos beatos lassalistas, fazemos e guardamos memória de outros muitos mártires aos quais arrancaram violentamente as vidas pela única razão de serem anunciadores de Jesus Cristo. Recordamos nossos mártires da França, do México, das Filipinas, da Polônia, do Vietnã, da Guatemala, da Colômbia e da Espanha. Também veneramos a memória de tantos Irmãos e Colaboradores que deram sua vida gota a gota, dia a dia, passo a passo, como um pedaço de giz no quadro verde, no anonimato da fidelidade diária.

     E ressoa aos nossos ouvidos e nosso coração, a voz familiar de nosso Fundador, que nos diz: "Toda gratidão que devem esperar por haverem instruído os meninos, sobretudo os pobres, são injúrias, ultrajes, perseguições e a própria morte: é a recompensa dos santos e dos homens apostólicos, como foi Jesus Cristo, Senhor nosso" (M 155, 3).
     Região onde floresceram nossos mártires e circunstâncias
em que ofereceram suas vidas

     A Província de Barcelona

     Um ano após a chegada dos Irmãos das Escolas Cristãs à Espanha, três Irmãos fundam a primeira comunidade de Irmãos em Barcelona, a 9 de fevereiro de 1879. Os Irmãos atendiam uma pequena escola com 96 alunos à rua Pont dela Parra, 3.


     Ao longo de toda a geografia espanhola, especialmente na Catalunha, tanto na cidade de Barcelona, quanto em outros povoados vizinhos, sucediam-se as fundações lassalistas. Os Irmãos atenderam os pedidos para a abertura de novas escolas. Em 1892, o número de obras lassalistas era tão elevado, que os Superiores decidiram dividir a antiga Província da Espanha nas Províncias de Madri e Barcelona.
    Um novo acontecimento inesperado faria com que as comunidades de Irmãos e as novas obras aumentassem em grande número no começo do século. A lei do ministro francês Combes proibiu o ensino a todas as Congregações religiosas na França. Nestas circunstâncias, um numeroso grupo de Irmãos decidiu cruzar a fronteira e instalar suas casas de formação e novas escolas na Catalunha e em outras cidades da Espanha. Em 1904, se criaria a primeira comunidade de Irmãos nas ilhas Baleares.
     Os Irmãos exerceram seu apostolado educativo com muita dedicação e empenho durante muitos anos, obtendo muito êxito e o reconhecimento da sociedade espanhola.

    O conflito da guerra civil
    Em 1931, complica-se a situação política na Espanha. O rei Alfonso XIII deve fugir da Espanha ante a instauração da República. Começa um período complicado da história da Espanha. A República elabora uma Constituição que excluía a tolerância e o respeito e tinha marcado caráter anti-religioso. A situação política não é estável, sucedendo-se governos de direita e de esquerda. O povo vai-se polarizando para um lado para um lado ou outro do arco político. Para os partidos de esquerda (socialistas, comunistas, anarquista), a Igreja não é uma instituição neutra e, sim, está a favor dos partidos de direita. Portanto, cada vez que chegam ao poder, suas leis são de caráter anti-religioso. A situação chega a ponto de alguns elementos radicais de esquerda realizarem ações descontroladas e criminosas, como, por exemplo, o incêndio do Colégio Maravilhas de Madri, ou o assassinato dos Irmãos e do capelão da comunidade de Turón na revolução das Astúrias.
     Em 1936, todas as forças de esquerda unem-se nas eleições numa coalizão chamada "Frente Popular". Ganham com grande vantagem. A partir deste momento, generalizam-se em toda a Espanha o descontrole e o desgoverno e sucedem-se os assassinatos entre os dois bandos. Os mais conhecidos são os do Tenente Castilho e do Deputado Calvo Sotelo.
     A 18 de julho de 1936, o General Franco começa um levantamento militar. Parte dos militares se unem a ele e outro grupo permanece fiel à República. A Espanha divide-se em duas e começa a triste guerra civil espanhola. Guerra entre irmãos que provocaria centenas de milhares de mortes nos quase três anos que durou.
     Ao começar a guerra, assassinatos, fuzilamentos, perseguições eram habituais em ambos os lados. Pelo lado republicano, começou uma "época de caça e captura" contra todos os que pertenciam à Igreja católica. Entre padres, religiosos, religiosas e leigos, sob acusação de serem "fascistas", foram assassinados uns 7.000. Neste grupo tão numeroso, de verdadeiros mártires, encontra-se um grupo de mais de 150 Irmãos das Escolas Cristãs. Concluída a Guerra Civil, começou o longo processo de beatificação.

    
A Província de Valência-Palma
    Em 1955, a Província de Barcelona - que, neste momento, tinha mais de sessenta obras educacionais - decidiu dividir-se e formar as Províncias de Valência e Barcelona. Hoje, a Província de Valência-Palma compreende as obras educativas de Teruel (lugar do nascimento dos cinco Irmãos), a Comunidade valenciana e as Ilhas Baleares.
     Nossos Irmãos foram beatificados com um grupo de duzentos e vinte e seis sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos da Diocese de Valência, pois foi nesta diocese que sofreram o martírio. D. Garcia Gasco, Arcebispo de Valência, realizou um trabalho muito profundo na busca de informações sobre os mártires e nas revisões legais do processo.


ORAÇÃO DOS BEATOS IRMÃOS MÁRTIRES DE VALÊNCIA

Senhor Deus,
fonte e origem de toda a bondade,
que fizeste de teus servos
Florencio Martín,
Bertrán Francisco, Ambrosio León,
Elías Julián e Honorato Andrés,
Irmãos de La Salle,
insignes educadores da fé
e fiéis servidores do Evangelho
até o derramamento do próprio sangue,
concede-nos por Jesus Cristo, teu Filho,
a fortaleza de imitá-los
em seu serviço generoso aos homens
e em sua fidelidade no testemunho de teu nome.
Por nosso Senhor, Jesus Cristo.
Amém.



 
 
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